Crônica de um silêncio que chegou com o vento
Não podia ter vindo em melhor hora, dizem os antigos, quando as forças dos orixás se fazem presentes, nos cobrem de axé, protegem os nossos e alimentam até os sorrisos que insistem em resistir à dor. Àwúre.
Gabi sempre foi dessas presenças que pareciam vir de longe. De algum lugar onde os sonhos não têm medo e as ideias brotam feito flores em campo aberto. Quando criança, já havia nela uma inquietude que só os que vieram para sentir o mundo com mais força conseguem carregar. Meiga, sim. Mas com os olhos de quem já lia o invisível. Era ali, na escola, entre as brincadeiras e os cadernos, que ela construía — silenciosamente — a Gabriela de depois: aquela que pensava o mundo, vendia livros, lia almas e ouvia com o coração.
Os sonhos não envelhecem, não para ela. Seguiam em movimento, como os ventos de Oyá, a Iansã que a acompanhava, guerreira dos céus e das tempestades. Ela fazia da vida um movimento contínuo entre conhecer, transformar e amar. Reunia em si a Elis Regina, a doçura e a potência, mas também carregava a alma inquieta dos que partem cedo — como Kurt, como Amy — e deixam para trás um rastro impossível de apagar.
Gabriela era livro aberto e guardava capítulos que muitos tiveram a sorte de ler. E mesmo os que não chegaram ao fim da história, sentem hoje o peso das páginas que ainda queriam viver ao lado dela.
Nos resta agora um nó no peito. Um desejo absurdo de mais tempo, de mais risadas, mais conversas longas e intensas, mais cafés entre amigos, mais sonhos discutidos, mais vida partilhada.
Mas que os ventos de Iansã a conduzam, com a força que ela sempre carregou, para o reino da paz e da harmonia. Que sua travessia seja leve e luminosa. E que sua história, contada entre páginas de afeto e coragem, jamais se perca entre os silêncios da saudade.

Àwúre, Gabriela.
Boa sorte na eternidade dos justos.
Boa viagem, filha dos ventos.
por Celio Pimentel




