Em meio a ameaças contra ministros e familiares, acusações internas e decisões contraditórias, o Supremo enfrenta uma crise que ultrapassa seus integrantes e coloca em discussão a própria autoridade da Justiça brasileira
Há um velho ditado segundo o qual “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. A frase, repetida durante gerações, parece ganhar novo significado diante da crise que atravessa o Supremo Tribunal Federal. Afinal de contas, o que está acontecendo com a soberania do Judiciário brasileiro?
O cenário lembra uma trama cuidadosamente construída para o cinema. A diferença é que os personagens são reais, as decisões atingem todo o país e o desfecho ainda está longe de ser conhecido. O conflito já não acontece apenas entre os Poderes ou entre o STF e setores da sociedade. Agora, as divergências chegaram ao interior da própria Corte.
As informações conhecidas até 9 de setembro de 2026 mostram um Supremo dividido por acusações, suspeitas de parcialidade e decisões conflitantes. O embate envolve os ministros Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino, além da direção da Polícia Federal e das investigações relacionadas à Operação Compliance Zero e ao Banco Master.
André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Flávio Dino reagiu e decidiu pela reintegração dos dois servidores. Diante do impasse, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões e convocou uma sessão extraordinária para que o plenário discuta a possível abertura de investigação envolvendo Alexandre de Moraes.
Fachin também determinou que procedimentos relacionados a ministros do Supremo passem pela Presidência da Corte, numa tentativa de impedir novas decisões contraditórias e restabelecer a condução institucional do tribunal. Pela primeira vez em 17 anos, uma sessão do STF chegou a ser cancelada em meio a um conflito interno. Reuters, UOL.
Mas a crise não se limita às disputas dentro dos gabinetes.
Flávio Dino relatou ter recebido ameaças de morte e afirmou que seus familiares também passaram a ser alvo de perseguição. Segundo o próprio ministro, ele seria apenas o segundo integrante da história do Supremo a enfrentar ameaças extensivas à família. O episódio precisa ser investigado com rigor, sem prejulgamentos, mas não pode ser tratado como parte normal do debate público.
Criticar decisões judiciais é um direito democrático. Questionar a atuação de ministros também é legítimo. Ameaçar magistrados e seus familiares, porém, ultrapassa qualquer limite da liberdade de expressão. Quando a violência substitui o argumento, o ataque deixa de ser dirigido apenas a uma pessoa e passa a atingir a instituição que ela representa.
O Supremo nasceu com a República. Criado pelo Decreto nº 848, de 1890, e consolidado pela Constituição de 1891, foi inspirado no modelo da Suprema Corte dos Estados Unidos. Sua missão era assegurar a Constituição e funcionar como limite aos abusos dos demais Poderes. Desde então, sua independência foi colocada à prova em diferentes períodos da história. Histórico oficial do STF.
Na República Velha, Floriano Peixoto entrou em confronto com o tribunal por causa da concessão de habeas corpus a opositores. Durante o governo de Getúlio Vargas, ministros foram afastados e a composição da Corte foi alterada. Na ditadura militar, o AI-2 aumentou o número de integrantes do Supremo e, após o AI-5, três ministros foram aposentados compulsoriamente.
Em todos esses momentos, a ameaça estava claramente identificada e vinha, sobretudo, de fora do tribunal. A crise atual apresenta uma característica diferente: pressões externas convivem com uma perigosa ruptura de confiança entre os próprios ministros.
Quando integrantes da mais alta Corte do país trocam acusações, anulam decisões uns dos outros e colocam sob suspeita a atuação de órgãos de investigação, a população passa a se perguntar quem fiscaliza os responsáveis por fiscalizar a República.
Nenhum ministro está acima da Constituição. Da mesma forma, nenhuma acusação pode ser considerada verdadeira antes de uma apuração independente, transparente e conduzida dentro do devido processo legal. Defender o STF não significa proteger individualmente seus integrantes de qualquer investigação. Significa assegurar que suspeitas sejam esclarecidas sem vinganças pessoais, interferências políticas ou julgamentos antecipados.
Talvez os chamados “ventos do Norte” estejam movimentando os moinhos da política brasileira. Talvez interesses externos, pressões eleitorais e disputas internas estejam se encontrando no mesmo ponto. Mas atribuir toda a crise a uma articulação estrangeira, sem provas, seria apenas trocar uma dúvida por uma teoria.
No frigir dos ovos, a soberania do Judiciário não depende da força de um ministro, mas da credibilidade de suas decisões. Essa credibilidade somente poderá ser preservada com transparência, colegialidade, respeito às competências institucionais e disposição para investigar qualquer integrante da Corte quando existirem elementos concretos.
O Brasil já assistiu a governos tentando controlar o Supremo. Agora, vê o próprio Supremo lutando para controlar sua crise interna.
A República precisa de um Judiciário independente, mas independência não pode ser confundida com ausência de limites. A Corte deve ser soberana na aplicação da Constituição, jamais soberana sobre ela.


