Prefeitura prepara desapropriação do imóvel para recuperar espaço que acolheu a produção teatral, revelou talentos e marcou a memória cultural da cidade
Por Celio Pimentel | Jornal Hora Certa
Com informações da Coordenadoria Geral de Comunicação da Prefeitura de Niterói
O Teatro Leopoldo Fróes, na Praça da República, no Centro de Niterói, poderá voltar a receber artistas e espectadores depois de mais de três décadas de portas fechadas. Em nota divulgada no domingo, 18 de outubro, a Prefeitura de Niterói anunciou que o prefeito Rodrigo Neves deverá assinar, nesta semana, o decreto de desapropriação do imóvel. A proposta é restaurar o prédio e devolver à população um espaço dedicado ao teatro e a outras manifestações culturais.
O anúncio reacende a esperança de quem conhece a importância daquele palco para a cidade e para a cultura fluminense. Mais do que uma casa de espetáculos, o Leopoldo Fróes foi um ambiente de formação, encontro e experimentação, onde atores, atrizes, músicos e produtores encontraram oportunidades para desenvolver seus trabalhos.
Segundo a administração municipal, a recuperação deverá valorizar especialmente a produção niteroiense, oferecendo espaço para grupos e coletivos culturais. A nota não apresenta orçamento, prazo de execução das obras ou data de reabertura.
“Ele faz parte da memória afetiva da cidade e é um desejo antigo da classe artística”, afirmou Rodrigo Neves, no comunicado. O prefeito também relacionou a recuperação do teatro à revitalização do Centro e à valorização da economia criativa.
Um espaço democrático de criação
Para quem frequentou o Leopoldo Fróes nos anos 1970, a notícia desperta lembranças de uma Niterói que fazia da cultura um lugar de convivência e descoberta. O teatro era um celeiro de talentos e um espaço democrático para produzir, apresentar e assistir à arte.
Em minhas lembranças daquele período, sua influência ultrapassava os limites do município. Artistas e frequentadores vindos de Campos, Natividade, Nova Friburgo, Araruama, Cabo Frio e de outras cidades encontravam em Niterói um ponto de encontro cultural.
Recordo-me de um show de Gilberto Gil nos anos 1970, entre outras apresentações a que assisti naquele palco. Também acompanhei peças de grupos locais e produções vindas do Rio de Janeiro. Essas recordações pessoais ajudam a dimensionar o significado do teatro para quem viveu aquela época: ir ao Leopoldo Fróes era participar da vida cultural da cidade.
Da censura à resistência cultural
O histórico encaminhado pela Prefeitura registra que o espaço abrigava anteriormente o Teatro Alvorada. Em 1973, durante a ditadura militar, a casa foi fechada pelo Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, após a apresentação de “Arena conta Zumbi”, pelo grupo Ceia, do Instituto Abel.
A montagem, que abordava a luta e a resistência dos quilombolas de Palmares, foi considerada subversiva pela repressão. Depois de dez meses fechado, o espaço voltou a funcionar, passando a homenagear o ator e comediante niteroiense Leopoldo Fróes.
O Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural, o INDC, assumiu o imóvel por meio de aluguel, em um momento em que o Theatro Municipal passava por reformas. O palco consolidou, então, sua vocação como lugar de experimentação e formação de profissionais.
Essa trajetória ganhou significado especial diante das mudanças provocadas pela fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, em 1975, quando Niterói deixou de ser capital estadual. A cidade precisou reafirmar sua identidade, e a mobilização cultural foi parte desse processo.
Movimentos como “Niterói vai Sumir”, “Niterói vai Assumir” e “Araribroadway”, além de grupos como Grito e Papel Crepon, integraram essa efervescência. O teatro oferecia condições para que diferentes propostas chegassem ao público e ajudassem a manter viva a produção artística local.
Teatro, música e formação de público
Na década de 1980, o Leopoldo Fróes ampliou sua programação com espetáculos profissionais vindos do Rio de Janeiro, mantendo a presença da produção niteroiense. Projetos como “Fim de Tarde”, “Sete em Ponto”, “Pixinguinha” e “Seis e Meia” marcaram essa fase e fortaleceram sua importância no circuito da música popular brasileira.
De acordo com a memória histórica apresentada pela Prefeitura, passaram pelo palco Sidney Magal, Elza Soares, Leci Brandão, Zizi Possi, Elba Ramalho e Pepeu Gomes.
A casa também esteve ligada à projeção de artistas associados à cena de Niterói, como Zélia Duncan, Arthur Maia, Dalto, Byafra, Marvio Ciribelli, Sergio Chiavazzoli e Marcos Sabino.
Nas artes cênicas, outra contribuição importante foi o ciclo de leituras dramatizadas da Associação dos Trabalhadores em Artes Cênicas de Niterói, a ATACEN. A iniciativa ampliava o contato com a dramaturgia e criava oportunidades de encontro entre intérpretes, autores e espectadores.
A riqueza dessa programação mostra que a importância do Leopoldo Fróes estava tanto nos nomes conhecidos quanto nas oportunidades oferecidas a quem começava. Ensaios, leituras, apresentações e encontros ajudavam a formar artistas e público.
O fechamento e a mobilização dos artistas
Conforme a nota da Prefeitura, o teatro deixou de funcionar sob administração municipal em 1991. O fechamento provocou a reação de artistas e produtores, que organizaram o movimento SOS Leopoldo Fróes.
A mobilização reuniu um abraço ao teatro, um show na Praça da República e um abaixo-assinado pela preservação de suas atividades. Apesar dos esforços, a campanha não conseguiu reverter o encerramento. Em 2021, o imóvel foi atingido por um incêndio, agravando a situação de um patrimônio já afastado de sua função cultural.
A ausência daquele palco representou a interrupção de oportunidades de trabalho, formação e acesso à arte. Para quem acompanhou sua trajetória, permaneceu a sensação de que uma parte da história cultural de Niterói havia ficado sem lugar.
Preservar a memória e abrir espaço para o futuro
Niterói ampliou sua projeção cultural e turística com equipamentos como o Museu de Arte Contemporânea e o conjunto do Caminho Niemeyer. Esses espaços convivem com a necessidade de recuperar referências anteriores, fundamentais para compreender a trajetória da cidade.
A proposta de restauração do Leopoldo Fróes integra, segundo a Prefeitura, o processo de revitalização do Centro. A expectativa anunciada é aproximar novamente o espaço da produção artística local e da população.
Esse movimento também dialoga com o projeto do Museu do Cinema Brasileiro, previsto para o edifício em formato de rolo de filme no complexo do Reserva Cultural, em São Domingos. No anúncio municipal de outubro de 2025, a previsão de implantação era 2028, com uma proposta interativa voltada à história e às linguagens do audiovisual.
A relação com o cinema encontra uma referência fundamental na Universidade Federal Fluminense. Criado em 1968, com participação decisiva do cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos, o curso de Cinema da UFF está entre os pioneiros do país e contribuiu para a formação de gerações de profissionais.
A recuperação do Teatro Leopoldo Fróes merece reconhecimento e acompanhamento. Seu valor estará na restauração do prédio, na preservação dos registros de sua história e nas condições oferecidas para que novos artistas possam trabalhar.
Para quem conheceu aquele palco cheio de vida, a esperança é voltar a encontrar suas portas abertas, com programação contínua, acesso democrático e espaço para a diversidade da cultura fluminense. Niterói tem a oportunidade de devolver à população um lugar onde a memória possa continuar sendo construída.
Crédito das fotografias que acompanham a nota da Prefeitura: Claudio Fernandes.


