Por Celio Pimentel
Era pra ser só mais uma viagem a trabalho. Nesta quinta-feira, 17, fui até São Gonçalo buscar a nova edição do Jornal Hora Certa na Gráfica Esquema. Tudo seguia dentro do habitual — estrada, sol, ponteiro do combustível… foi aí que começou o imprevisto.
Na altura de Tanguá, o carro entrou na reserva. Nada fora do comum. Parei no primeiro posto Ipiranga que avistei — daqueles que vivem cercados de caminhões e motores ligados — e pedi à frentista R$ 150 de gasolina, pago no cartão. Tudo certo. Ou assim pensei.
O ponteiro não subiu como de costume. “Deve ser defeito do marcador”, pensei, como quem evita a preocupação. Peguei o jornal em Niterói. Mas, na volta, já em plena subida da serra do Mato Grosso, em Saquarema, o carro apagou. Pane seca.
Parei no acostamento e, por um instante, tudo congelou. Caminhões passavam em alta velocidade, o risco era real. Acionei o seguro. Prometeram 60 minutos. Não chegaram.
Foi então que surgiu ele.
Um motociclista parou. E por um momento, confesso: temi. A estrada escura, o silêncio, o instinto de autoproteção. Mas minha esposa, tranquila, me deu o tom da calma. Aquele homem não era ameaça. Era socorro.
Perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse que sim. E, de repente, outro carro parou à frente. O motorista emprestou um galão. Não sabíamos o que fazer com ele — e, de novo, o motociclista se ofereceu: “Eu vou buscar o combustível.”
E foi. Sem pressa, mas com urgência. Pouco tempo depois, lá estava ele, voltando com o galão cheio. Colocamos a gasolina, liguei o carro e o motor respondeu com vida. Quis pagar — ele recusou.
Ainda fez questão de ficar ali, cuidando da minha manobra na pista, garantindo minha segurança até eu retomar a estrada. Ele ficou parado, com o farol aceso, enquanto eu e minha esposa seguíamos viagem em direção a Maricá, com o coração apertado de gratidão.
Sinalizei com o pisca. Não havia mais o que dizer. Nem seu nome eu sabia. Apenas que aquele homem, junto ao motorista do outro carro, apareceu como que enviado pelas estrelas que testemunharam nosso pedido de socorro naquela estrada escura.
Quando enfim o reboque passou por nós, tarde demais, avisei pelo telefone: “Não precisa mais. Um anjo da guarda chegou antes de vocês.”
É difícil explicar. Talvez não precise. O que importa é que, no meio de um país tão conturbado, ainda existem pessoas que param — literalmente — para ajudar. Não pedem nada. Só querem ver o outro seguir em frente.
Essa crônica é pra você, motociclista anônimo. E também para o motorista do carro que parou. Que esse texto, de alguma forma, chegue até vocês. E que saibam: vocês foram luz no escuro. Anjos do asfalto.
Muito obrigado.




