quinta-feira, março 26, 2026
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“ENCONTROS E DESPEDIDAS” Celio Reginaldo Moreira Pimentel

Há dias em que o tempo parece fechar um ciclo.
Não com alarde, não com pressa, mas com a delicadeza inevitável de quem sabe que tudo o que começa, um dia, também aprende a partir.

Na última terça-feira, 24 de março, Célia Regina Noreira Pimentel seguiu seu caminho. Partiu como viveu: em silêncio, sem ocupar espaços que não fossem necessários, mas deixando, ainda assim, uma presença que permanece.

Como sussurra Tom Jobim em suas águas de março, há fins que são também começos. O verão se despede, mas a vida, essa, encontra outras formas de continuar.

Foram 76 anos de travessia.
Uma vida feita de gestos que não pediam reconhecimento, mas que sustentaram histórias inteiras. Célia era dessas pessoas que constroem sem anunciar, que cuidam sem reivindicar.

Esteve presente no resgate da Casa da Flor, na valorização do cordelista J. Rodrigues, no reconhecimento do ceramista Adalto, no fortalecimento das rendeiras de Arraial do Cabo. E em tantos outros movimentos que talvez nunca venham a ser registrados, mas que seguem vivos na memória de quem viveu.

O anonimato, para ela, não era ausência. Era escolha.
Era forma de estar no mundo sem ruído, mas com profundidade.

Mas a vida também nos chama para atravessar dores que não cabem em palavras simples.

Ginga, minha irmã, também partiu.
E quando uma irmã parte, não é só uma pessoa que vai. É um pedaço inteiro da nossa história que se desloca com ela.

Foi ao encontro de Vicentina, nossa mãe, que partiu cedo demais, deixando histórias suspensas no ar, como páginas que o tempo não conseguiu terminar de escrever. Levadas pela mesma doença, essas duas despedidas se tocam em silêncio. E é impossível não pensar que, em pleno século XXI, enquanto o mundo ainda insiste em guerras, o câncer segue travando batalhas silenciosas dentro de tantas casas.

E também foi ao encontro de Sotero, nosso pai.
Homem de palavras e memória. Um guardião de histórias.

Daqueles que sentam e contam, e enquanto contam, constroem mundos. Suas resenhas atravessaram o tempo, viraram livro, viraram filme, encontraram olhos atentos do outro lado das telas. Mais de 30 mil pessoas ouviram, de alguma forma, aquilo que ele viveu.

Aos 93 anos, aposentado da Estrada de Ferro Maricá, ele partiu como quem entende o próprio destino. Como quem sobe, com calma, em um trem azul, sabendo que a viagem continua.

E eu fico.

Fico com o silêncio que sobra depois das palavras.
Fico com o peso leve e ao mesmo tempo profundo da ausência.
Fico com esse nó no peito, que não aperta o suficiente para sufocar, mas também não solta o bastante para aliviar.

Mas fico, sobretudo, com a esperança.

A esperança de que, em algum lugar que não cabe nos nossos olhos, Regina encontre Vicentina e Sotero.
Que o reencontro exista.
Que as histórias continuem sendo contadas, agora em outro tempo, em outro espaço, onde a dor já não alcança.

E que lá, juntos, estejam inteiros.
Sem despedidas. Sem pressa.

Porque talvez a vida seja isso:
uma sucessão de encontros que o tempo organiza
e de despedidas que o amor se recusa a encerrar.

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