quinta-feira, fevereiro 26, 2026
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Coluna Fala Celio Homenagem ao músico Hermeto Pascoal

Entre tantos shows marcantes que assisti, um permanece vivo na memória: o de Hermeto Pascoal em Búzios, cujo ano já não recordo, mas cuja intensidade jamais esqueci. A plateia interagia sem parar com o “mago” do instrumental. Hermeto, surpreendendo a todos, tocou pandeiro – instrumento que no início da carreira ele se recusava a usar – e até uma chaleira, num gesto inédito para nós espectadores.

O ápice, porém, veio no fim da apresentação. Do palco, Hermeto chamou sua banda, formada por filhos e companheiros de estrada, e convidou todos nós, público, a segui-los pela rua e pela praça de Armação dos Búzios. Aquele cortejo musical improvisado transformou a cidade numa festa coletiva. Foi inesquecível.

Ícone da música instrumental desde os anos 60, Hermeto participou da geração dos festivais da canção, rompeu fronteiras no jazz, tornou-se conhecido mundialmente nos Estados Unidos, recebeu prêmios como o Grammy e projetou a música brasileira em sua forma mais livre.

A notícia de sua partida foi dada com serenidade por sua família e equipe:

“Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu grupo estava no palco, como ele gostaria: fazendo som e música. Escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira: a música universal segue viva.”

E seguem também seus versos:

“A música segura o mundo,
Enquanto a gente viver,
É a maior fonte sem fim,
De alegria e prazer,
Toquem, cantem, minha gente,
Até o dia amanhecer.”

Hermeto Pascoal nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas, em 1936. Filho de sanfoneiro, aprendeu cedo os sons da natureza e fez deles matéria-prima da música. Passou pelas rádios de Recife e Caruaru, integrou a Orquestra Tabajara, foi ao Rio e a São Paulo, onde fundou o lendário Quarteto Novo. Com ele, ganhou festivais, acompanhou Edu Lobo, Geraldo Vandré e Elis Regina.

No exterior, gravou obras que se tornaram referência no jazz mundial, mas foi sempre aqui, no Brasil profundo, que manteve suas raízes. Do forró ao baião, do piano à chaleira, Hermeto fez da liberdade sua estética, da invenção sua assinatura.

O presidente Lula lembrou bem: “Hermeto transformou em música tudo o que tocava. Dialogou com o jazz, a música popular brasileira e as tradições regionais. O Brasil se despede com gratidão deste grande artista.”

E eu acrescento: o Brasil se despede de um mestre que nos mostrou que a música está em tudo – na água, no vento, no silêncio e até numa chaleira.

Hermeto viveu, tocou, encantou.
E continuará soando em cada nota que ecoar pelo mundo.

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