quinta-feira, fevereiro 26, 2026
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Fala Célio — Homenagem a Lô Borges

Por Célio Pimentel

Morreu em Belo Horizonte, aos 73 anos, o cantor e compositor Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina e parceiro eterno de Milton Nascimento. A notícia, confirmada pela família nesta segunda-feira (3), encerra uma das trajetórias mais poéticas e revolucionárias da música brasileira. Lô partiu neste domingo (2), às 20h50, vítima de falência múltipla de órgãos — mas deixa viva uma obra que atravessou gerações e fronteiras, traduzindo em acordes o espírito de liberdade que soprou nas esquinas de Minas, do Rio e do mundo.

Em 1972, sem saber, quase cruzei o caminho dessa turma. Fui convidado por amigos “estradeiros” para uma festa em Piratininga — gente que tocava, que vivia música e sonho. Saímos de São Gonçalo rumo à praia, eu, Clebinho Louro e Zédio. Naquele tempo, Piratininga era quase só areia e restinga. Rodamos o bairro todo sem achar a tal casa dos músicos. Perdemos o último ônibus, ficamos à beira da estrada, e quando apareceu um Opala pedindo ajuda para pegar no tranco, embarcamos no destino — literalmente. O carro capotou, e eu só acordei dias depois, no Hospital Antônio Pedro. Nunca soube quem me salvou, mas sei que Deus estava presente.

Décadas depois, lendo Os Sonhos Não Envelhecem, de Márcio Borges, descobri que a festa que eu procurava naquela noite era justamente na casa de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Jacaré — os “malucos” que criavam, ali em Mar Azul, o maior disco da música brasileira.

O livro descreve aquele casarão de Piratininga: uma construção imponente sobre a encosta, com varandas cheias de samambaias e uma vista que se perdia entre a lagoa, a areia e o mar aberto. Era ali, entre o vento e a liberdade, que os mineiros encontraram paz para compor o álbum Clube da Esquina (1972) — uma obra que a revista Rolling Stone classificaria décadas depois entre as maiores da história mundial.

Aquela casa recebia todos: Bituca, Lô, Beto, Jacaré, Tavito, Wagner Tiso, Rubinho, Sirlan… e dali saíram não só músicas, mas um modo de ser — um espírito coletivo, solidário e musicalmente ousado, nascido em plena ditadura, quando juventudes do país inteiro se encontravam em esquinas reais e simbólicas para resistir e criar.

Lô Borges era o coração dessa esquina.
O menino do tênis gasto, o compositor de “Trem Azul”, o poeta das harmonias que pareciam nascer do vento. Era também o garoto que, um dia, recebeu Milton Nascimento em casa e, ao mostrar um tema, ouviu o Bituca completar com a melodia: assim nascia “Clube da Esquina”.

Hoje, a esquina se cala um pouco. Mas só um pouco.
Porque o som de Lô não morre — ele continua ecoando nas guitarras suaves, nos discos riscados, nas vozes que ainda cantam “Paisagem da Janela” e “O Trem Azul”.

E talvez, lá de Mar Azul, de onde tudo começou, ele esteja sorrindo.
Afinal, os sonhos não envelhecem — e os sons, quando são verdadeiros, também não morrem.

Foto: Milton Nascimento (Bituca) Beto Guedes e Lô Borges no Mar Azul praia de Piratininga, Niterói

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