FALA CELIO
Eu tinha quatorze anos, era 1969, e o mundo parecia inteiro caber dentro do meu bairro, das ruas de Alcântara e do colégio Pandia Calógeras, onde eu estudava. O homem ainda nem tinha voltado da Lua, mas nós já nos achávamos exploradores de outro planeta.
Morava numa casa com um quintal grande, que para mim era uma selva particular — o lugar onde eu treinava minhas “missões” imaginárias, subindo em árvores, construindo cabanas e caçando tesouros que só existiam na minha cabeça. Meu pai trabalhava no trem que ligava Niterói a Cachoeira de Macacu, e era com ele que eu aprendia a admirar as viagens: o som das rodas nos trilhos, o vapor quente da maria-fumaça e aquela nuvem de fuligem que pintava o ar de aventura.
Foi num desses dias que o Colégio Pandia Calógeras organizou uma saída especial. Eu e a turma do Seven Clube — um grupo de garotos que se achavam destemidos e invencíveis — íamos até Cachoeira de Macacu para um reconhecimento de local, como chamávamos nossa missão de exploradores mirins. O plano era simples: ir, observar e planejar um acampamento oficial. Na prática, era a nossa chance de viver uma aventura de verdade. Afinal de contas, a maioria do Seven Clube haviam sido escoteiros como o Pato Donald e seus sobrinhos, seria normal acampar.
A viagem foi uma festa. No trem, paquerávamos as garotas, fingindo uma ousadia que não tínhamos, e ouvíamos Beatles, Creedence e outros conjuntos que faziam o mundo girar mais rápido. Tínhamos um rádio de pilha e sintonizávamos a Rádio Mundial, onde o lendário Big Boy fazia o rock ecoar como se viesse direto do futuro. Ele dizia “hello, crazy people!” e a gente acreditava que aquele grito era pra nós — a juventude do Alcântara, sonhadora, inquieta e pronta pra conquistar qualquer coisa.
Chegando a Cachoeira de Macacu, o vento era diferente. O ar tinha cheiro de mato e liberdade. Olhávamos as montanhas como se fossem muralhas de um reino a ser desbravado. Cada pedra, cada trilha, cada som do rio era uma promessa de aventura.
Voltamos cansados, sujos, mas com o coração aceso. Ali, naquele trem de volta pra Niterói, nasceu um pacto silencioso: um dia faríamos parte de uma verdadeira turma de aventureiros do Alcântara.
E, de certa forma, fizemos. Não com bússolas e tendas, mas com sonhos, amizade e aquele espírito curioso que nunca deixou de nos acompanhar — mesmo quando o mundo cresceu e os trilhos mudaram de rumo.
Porque, no fundo, toda aventura começa assim: com um menino, uma maria-fumaça e um desejo de ir além do que se pode ver.




