No último domingo, o dia parecia anunciar mais uma das jornadas que faziam parte da vida de Caio Rocha Aguiar Arrabal. Para quem o conhecia, escalar montanhas, percorrer trilhas, reunir amigos e observar a paisagem do alto não era apenas um passatempo. Era uma vocação. Era uma forma de estar no mundo.
Caio, alpinista de Araruama, tinha na natureza um lugar de encontro consigo mesmo, com os amigos e com a vida. Desde criança, carregava essa vontade de subir, descobrir caminhos, vencer distâncias e enxergar além. As montanhas pareciam conversar com ele.
Naquele domingo, uma caravana partiu de Araruama rumo à Pedra do Macaco, em Maricá, ponto conhecido por sua altura aproximada de 150 metros e por uma vista exuberante da região. Como em tantas outras expedições, Caio organizou o grupo, reconheceu o terreno e seguiu com a experiência de quem tinha acumulado treinamentos, cursos e muitas horas de escalada.
No ponto mais alto da montanha, Caio pediu que os companheiros registrassem aquele momento. Era mais uma imagem para guardar: o alpinista diante da paisagem, o homem diante da imensidão, o amigo junto de sua expedição.
Mas, na descida, a vida apresentou um daqueles instantes que escapam de qualquer explicação humana. Entre a urgência dos amigos, as tentativas de ajuda e o desejo de que tudo terminasse bem, restou a sensação de que havia algo maior acontecendo. Não era como nos filmes, em que o herói sempre encontra uma saída. Era a realidade dura, silenciosa e inesperada.
Caio, que tantas vezes parecia voar entre pedras, cordas e alturas, fez naquele dia sua última escalada.
No velório, muitas gerações estiveram presentes. Amigos de infância, companheiros de trilha, familiares, conhecidos e pessoas que, de alguma forma, foram tocadas por sua presença. Era possível perceber o quanto Caio era querido. Seu semblante permanecia sereno, como se guardasse a tranquilidade de quem havia cumprido uma missão.
Entre tantas cenas de despedida, ficou marcada a conversa com seu pai, Janelson. Em um momento tão difícil, ele encontrou forças para oferecer palavras de conforto. Para um pai que também conhece o amor e o medo de ver um filho seguir seus próprios caminhos, aquelas palavras tiveram um peso profundo. A dor estava ali, mas também havia fé.
Dona Almenir, sua mãe, expressava uma dor impossível de medir. Ainda assim, em meio às lágrimas, havia um apelo de paz, de entrega e de esperança. Era como se ela dissesse que Caio seguia para um lugar onde Deus o receberia de braços abertos.
E naquele instante veio à memória a canção que tantos pais já cantaram em momentos de fé: “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui.”
A despedida final foi conduzida por seu irmão, Tairo, que, com sensibilidade e firmeza, reuniu todos em orações e cantos de louvor. Não era apenas uma despedida terrena. Era a despedida de um irmão, de um filho, de um amigo e de um homem que amava a vida em sua forma mais livre.
Caio escalou muitas montanhas em sua caminhada. Conheceu alturas, enfrentou desafios, reuniu amigos e contemplou horizontes que poucos têm coragem de alcançar.
Agora, para aqueles que acreditam, ele fez sua maior escalada: seguiu rumo à montanha eterna, ao encontro do Reino do Senhor.
À família, aos amigos e a todos que amavam Caio, ficam a saudade, as lembranças e a certeza de que algumas pessoas não desaparecem. Elas permanecem em cada trilha, em cada montanha, em cada paisagem vista do alto.
Caio Rocha segue vivo na memória de quem aprendeu com ele que a vida, mesmo breve, pode ser uma grande escalada.




