Em “A Lagoa e o Tempo”, o cineasta Célio Reginaldo Moreira Pimentel entrega não apenas um registro documental sobre a pesca artesanal na Região dos Lagos, mas também um retrato íntimo de pertencimento e herança cultural. A obra, que encerra uma trilogia iniciada há mais de quatro décadas, consegue o feito raro de ser, ao mesmo tempo, um documento histórico e um manifesto emocional.
O filme mergulha na rotina dos pescadores que vivem da Laguna de Araruama, valorizando a oralidade, os gestos repetidos, as mãos calejadas e as vozes que narram com orgulho – mas também com denúncia – as transformações sofridas pela lagoa e por quem dela depende. A fotografia de Raphael Boccanera captura com precisão tanto a beleza natural quanto os contrastes sociais que permeiam a região. Já a trilha sonora, assinada por Domingos Sergio e Marize Mizumoto, estabelece um clima de contemplação e resistência.
Entre os momentos mais marcantes, está a força simbólica das mulheres, que surgem como protagonistas da pesca no tempo presente – um avanço em relação aos registros anteriores da trilogia. A câmera acompanha de perto o trabalho delas nas redes, revelando uma nova configuração de protagonismo na atividade pesqueira.
Tecnicamente, o documentário é simples e direto, o que reforça a estética de verdade e proximidade com os personagens. Não há excessos narrativos nem recursos de linguagem que distanciem o público da realidade retratada. Pelo contrário: o tom sóbrio da montagem de Mariana Rosa e o som direto de Marcelo Sampa ajudam a manter a autenticidade das cenas.
O grande mérito de “A Lagoa e o Tempo” é sua capacidade de amarrar passado e presente com um fio condutor de resistência. Mais que um registro etnográfico, o filme é um ato de preservação da memória coletiva, num momento em que o próprio modo de vida retratado corre o risco de desaparecer.
Para os moradores da região, a obra funciona como um espelho de identidade. Para os de fora, é um convite à reflexão sobre os impactos ambientais, econômicos e sociais que moldam a vida em torno da maior laguna hipersalina da América Latina.
“A Lagoa e o Tempo” é, enfim, um documento necessário. Um filme que entende que a luta do pescador não é apenas por peixe: é por memória, dignidade e permanência.
FICHA TÉCNICA
Direção – Produção – Roteiro
Celio Reginaldo Moreira Pimentel
Direção de Fotografia – Câmera
Raphael Boccanera
Som Direto – Still – Assistente de Produção
Marcelo Sampa
Música Original
Domingos Sergio e Marize Mizumoto
Montagem e Edição
Mariana Rosa
Edição de Som
Mauricio Mizumoto
Argumento – Ato I
Luís Carlos Moreira “Calico”
Assistente de Produção
Raoni Pimentel Nobre
Participação
Luis Carlos Moreira “Calico”
Construtor de Barcos e Canoas |
Francisco Gomes Ramalho “Chico”
Construtor de Rede
Pescaria de Troia – Tripulação
Mestre: Lizeu Gomes
Caloeiro: Luis Carlos Moreira “Calico”
Proeiro: Francisco Gomes Ramalho “Chico”
Chubereiro: Antônio Fontes
Família Pescadora
Valcir e Esposa e o filho Micael




