Dizem que existem homens que passam pela vida como quem atravessa uma rua. Outros, como quem constrói uma estrada inteira. Edvaldo era desses. Dos que não apenas caminham, mas deixam marcas no chão para que outros saibam por onde seguir.
Lembro dele como se ainda estivesse ali, sentado à mesa de um bar qualquer de Araruama, o copo suando, o cigarro entre os dedos, e a cabeça fervendo ideias. A conversa sempre começava simples, mas logo virava Brasil, virava mundo, virava futuro. Era impossível não escutar. Edvaldo falava com o corpo inteiro, com o coração inteiro. E que coração.
Ele mesmo dizia, meio rindo, meio sério, que o seu era vermelho. Vermelho de luta, de história, de paixão. Vermelho como o batuque que ecoa na voz de Fafá de Belém, como se cada palavra fosse também um manifesto, um jeito de existir no mundo sem pedir licença.
Veio de Pernambuco, mas escolheu Araruama como quem escolhe um lugar para fincar raízes. E fincou. Aqui construiu vida, família, histórias. Gisele, companheira de caminhada. Juliana, Paloma e Gabriela, suas meninas, seu orgulho mais silencioso e mais profundo. Edvaldo não precisava dizer muito quando falava delas. Bastava o olhar.
Mas a vida, às vezes, não respeita o tempo que a gente acha justo. A partida de Gabi abriu uma ferida que não fecha fácil. Dessas que o pai tenta segurar no peito, apertando a dor entre um gole e outro, entre um pensamento e outro, como se fosse possível negociar com a ausência. Não era. Nunca é.
E mesmo assim, ele seguia. Porque havia ainda os netos, seus xodós, sua continuação. Nos pequenos gestos, nas risadas deles, talvez encontrasse algum descanso para esse coração que nunca deixou de pulsar forte demais.
Na cidade, seu traço também ficou. Edvaldo não era apenas artista, era presença. Suas serigrafias, suas ideias, suas criações ajudaram a dar rosto a Araruama. Logomarcas que até hoje estão ali, firmes, como se carregassem um pouco da sua assinatura invisível. Nos anos 90 e 2000, ele era mais que um criador. Era um articulador de imagens, de campanhas, de identidades. Um marqueteiro que entendia gente antes de entender números.
E então, numa madrugada de 31 de março, ele partiu. Partiu como quem sai cedo para a rua, como no Galo da Madrugada, aquele mesmo que embala as lembranças de Pernambuco. Dá para imaginar a cena. A cidade ainda dormindo, e ele seguindo, talvez ao som de Alceu Valença, como se a vida fosse um bloco eterno que não termina, só muda de avenida.
Fica agora o silêncio. Fica a saudade. Fica essa sensação de que ainda havia conversa para terminar, ideias para trocar, risadas para dividir.
Mas fica, sobretudo, a presença. Porque homens como Edvaldo não desaparecem. Eles permanecem nas marcas que deixaram, nas pessoas que tocaram, nas histórias que ajudaram a escrever.
E amanhã, entre o velório e o sepultamento, não será apenas uma despedida. Será um reconhecimento. De que ele lutou. De que viveu. De que foi, como diria Bertolt Brecht, um dos imprescindíveis.




