quinta-feira, fevereiro 26, 2026
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Encontros de cinema ou sobre amizades e rios

Por: Emaxsuel Rodrigues

 

Caminho pelas ruas da Universidade Federal do Pará dias depois do encerramento do encontro anual da Sociedade brasileira de estudos de cinema e audiovisual. As árvores parecem as mesmas, e o rio corre com suas mutações de cores diante dos ventos e das correntezas. Sei que ele vem de longe e passa por aqui; suas águas se espalham e não sei quais delas por aqui permanecem e quais encontram fluxos de retorno. Algo em mim me leva para o passado: dias atrás, encontrei muitas pessoas que como eu pesquisam e trabalham com cinema. Durante esse encontro, outros tantos encontros: o encontro com o próprio rio Amazonas e sua possibilidade de paisagem de calma; o encontro com os muitos caminhos para se pensar e pesquisar cinema; o encontro com pessoas, algumas já conhecidas durante esse caminhar na terra e outras que, espero, continuem próximas nessa jornada de existência e travessia humanas.

Edd foi o primeiro encontro. Pedi licença para me sentar quase a seu lado pouco antes da mesa de abertura. Não trocamos mais palavras, mas dividimos companhia. Por alguns instantes, fabulei sua vida: professor, estudante, casado com três filhos e cachorro, periquito, papagaio? Mas sua insistência de consultas ao celular me deu mais pistas: ele se preocupa com alguém que está longe.

Mário me reconheceu logo: “você estudou em Cachoeira, na UFRB?” E dali todas as possíveis e impossíveis memórias de um curto período em que convivemos durante a graduação. E sobre memórias, compartilhamos o amor por Jonas Mekas e o envelhecer que sentimos ao assistir “As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty”.

A voz de trovão de Célio me fez prestar atenção a seus dizeres sobre o Cinema Recreio. Fluminense, contador de histórias, falou depois sobre seus filhos, sua esposa e se mostrou ser uma dessas pessoas que vamos ouvindo, ouvindo e de repente: amigos.

O destino e a indicação da SOCINE fizeram com que compartilhássemos a mesma pousada, a Casa Miriti, tão perto da basílica de Nazaré e com pessoas tão acolhedoras como Rosa, Paulo, Letícia, Gabriel e Sílvia. E acordamos juntos, compartilhamos quarto, conversas matutinas, vespertinas, conversas. Saímos para jantar e aprender a comer açaí como se faz por aqui. Tentamos estar presentes às falas uns dos outros. Num fim de tarde, até consegui convencer Edd a ir num dos brinquedos do parque que nem imaginávamos que era tão, digamos, radical. Sobrevivemos, claro, sem arranhões. Edd foi o primeiro a se despedir e quem, no abraço de despedida, me fez lembrar de um valioso dizer que havia me ensinado: o de que só conhecemos o tamanho do amor por alguém depois que essa pessoa parte para o mistério.

Estar em Belém após o término do encontro me coloca nesse lugar de pensar as ausências. A cidade continua um lugar de muitos afazeres, aliás o trânsito se intensifica em virtude do Círio. Mas algo se modifica e, por mais que eu compreenda que se despedir é sempre necessário, pois “como as águas nos movemos em muitas direções”, há uma parte que falta, um carinho de presença, uma voz, uma partilha. Nesse ponto, me lembro que a SOCINE fez uma homenagem a Jean-Claude Bernadet, uma dessas pessoas cuja ausência é mesmo um espaço aberto para se pensar o afeto, o carinho, a gratidão por com-viver.

Esse é um escrito para muitos nomes de encontros: Marinas, Marcelos, Brunos, Rafaéis, Dianas, Mamôs, Victors, Thalitas, Renatos, Julianas, Laras, entre outros e outras. Também poderia ser um texto tão cheio de águas, pois se há algum tempo aprendi que o cinema é uma arte de encontros, foi num encontro de cinema que descubro um pouco mais sobre amizades e rios. Porque um rio nos diz sobre o que significa possibilitar a existência e a manutenção da vida; um rio encanta por ser partida e destino de si mesmo, por ser apenas rio e mover-se em direção a encontros outros e variados: com a vida, com as margens, com outras águas que o constitui e o define.

Um rio vale, e tanto e tanto, por ensinar que é impossível existir sozinho.

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