Por Celio Pimentel com apoio do IA
Apagão na Região dos Lagos desperta lembranças de Cuba e provoca uma reflexão sobre a Enel, as privatizações e o direito da população a serviços essenciais de qualidade
Como dizia Gonzaguinha, “Com tempo ruim, a gente também dá bom dia”. Então, deixemos de rodeios e cuidemos da vida, não é, leitor?
Na noite passada, por alguns instantes, pensei que estivesse novamente em Cuba. Talvez caminhando pelas ruas de Havana, passando pela histórica La Bodeguita del Medio, entrando no Cine Yara ou recordando as músicas de Pablo Milanés, Silvio Rodríguez, Los Van Van e tantos outros artistas que fazem parte da extraordinária cultura daquele país.
Mas eu não estava em Havana.
Estava em Araruama.
A lembrança não veio por causa de um mojito, de um bolero ou de alguma velha fotografia guardada há mais de três décadas. Veio porque, de repente, a luz apagou.
E quando a luz se apaga, algumas memórias curiosamente se acendem.
Em dezembro de 1993, estive em Havana para acompanhar o Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano. Era um período difícil para Cuba, mas de uma efervescência cultural impressionante. Recordo-me de apresentações de artistas como Silvio Rodríguez e Fito Páez e, sobretudo, daquele ambiente em que cinema, música, política e cultura pareciam conversar o tempo inteiro.
Foi naquele festival que Fresa y Chocolate se transformou em um dos grandes acontecimentos do cinema cubano. O filme, dirigido por Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, com Jorge Perugorría, Vladimir Cruz e Mirtha Ibarra, conquistou os principais prêmios da edição de 1993 e provocou enorme repercussão dentro e fora de Cuba.
Trinta e três anos depois, porém, eu estava bem longe do Cine Yara.
Neste sábado, dia 12, estava em Araruama assistindo ao belíssimo show da cantora Luiza Dionizio. A casa estava lotada quando cheguei e, graças a uma desistência na mesa da minha amiga Regina — salve a guarda! — consegui lugar. A noite prometia música, conversa e alegria.
Até que, pouco antes da meia-noite, veio o escuro.
Primeiro pensamos que fosse alguma coisa localizada. Logo começaram a chegar notícias de que não era apenas ali. O apagão atingia diferentes pontos de Araruama e também havia relatos de falta de energia em Iguaba Grande, Saquarema e São Pedro da Aldeia.
Naquela noite, um incêndio atingiu uma subestação da Enel na região da Fazendinha, em Araruama, durante a interrupção do fornecimento de energia que afetou municípios da Região dos Lagos.
Foi aí que Havana voltou à minha cabeça.
Pensei na Cuba de hoje, onde milhões de pessoas enfrentam longos períodos sem eletricidade. O embargo econômico norte-americano existe há mais de seis décadas e, em 2026, novas restrições impostas pelo governo Donald Trump ao fornecimento de petróleo agravaram ainda mais a escassez de combustível e a crise energética da ilha. A situação cubana, evidentemente, não se explica por uma única causa: há também problemas econômicos internos e uma infraestrutura elétrica envelhecida e fragilizada. Mas as recentes restrições ao petróleo aumentaram significativamente a pressão sobre um sistema que já enfrentava enormes dificuldades.
Em Cuba, portanto, existe uma crise econômica, política e energética de dimensões históricas.
Mas e em Araruama?
Estamos no Brasil, uma das maiores economias do mundo, em uma região turística, populosa e economicamente importante do Estado do Rio de Janeiro. Então é legítimo que o consumidor pergunte: por que continuamos convivendo com interrupções frequentes no fornecimento de energia?
A pergunta não nasceu com o apagão deste sábado. Em janeiro deste ano, a própria Prefeitura de Araruama já havia cobrado representantes da Enel por causa dos problemas recorrentes de blecautes e apagões no município, solicitando soluções, prazos e maior comprometimento da concessionária.
E aqui começamos outra conversa.
Durante boa parte do século XX, vários serviços considerados essenciais estiveram diretamente ligados a empresas públicas. A partir principalmente da década de 1990, o Brasil passou por um amplo processo de privatizações e concessões em setores como energia elétrica, telecomunicações, transportes e outros serviços de infraestrutura.
O argumento era conhecido: a iniciativa privada seria capaz de investir mais, modernizar as estruturas e prestar serviços com maior eficiência.
Décadas depois, talvez seja hora de fazer uma pergunta simples: essa promessa foi cumprida integralmente para o consumidor?
Não se trata de defender que tudo precisa ser estatal nem de afirmar que toda empresa privada presta um serviço ruim. Seria uma simplificação tão grande quanto dizer que privatizar, por si só, significa eficiência.
O que importa para quem paga a conta no final do mês é outra coisa.
Há energia? Há manutenção? Há investimento? Há rapidez quando acontece uma emergência? Existe respeito pelo consumidor?
Porque a conta chega.
E chega pontualmente.
Com sol, chuva ou apagão.
É justamente aí que a discussão deixa de ser ideológica e passa a ser cotidiana. Energia elétrica não é luxo. Está na geladeira que conserva os alimentos, no comércio que precisa funcionar, no restaurante que recebe seus clientes, no hospital, na escola, na comunicação, no pequeno empreendedor e na casa de cada família.
Quando o serviço falha repetidamente, não basta dizer ao consumidor que houve um problema técnico.
É preciso explicar, corrigir, investir e evitar que o problema volte.
Naquela noite, no escuro de Araruama, minha memória atravessou o Caribe e voltou a dezembro de 1993. Por alguns segundos, a Região dos Lagos parecia ter se encontrado com Havana numa inesperada geografia dos apagões.
Mas existe uma diferença fundamental.
Aqui não estamos submetidos ao bloqueio econômico que pesa sobre Cuba há décadas. Aqui pagamos tarifas elevadas e temos uma concessionária responsável pela prestação de um serviço público essencial.
Por isso, a comparação que começou quase como uma brincadeira terminou me provocando uma pergunta muito séria.
Se o consumidor paga pela energia, se paga impostos, taxas e tarifas, quanto tempo ainda terá de aceitar que a luz apague sem que se acendam, ao mesmo tempo, as responsabilidades?
Talvez Gonzaguinha tivesse razão.
Com tempo ruim, a gente também dá bom dia.
Mas dar bom dia não significa ficar calado.
Afinal de contas, quando a luz apaga, alguém precisa responder por que o cidadão continua pagando a conta no claro.


