Por Celio Pimentel
No século XIX, ser pai era carregar no rosto a expressão de quem “mantinha” a casa. Ao homem cabia o trabalho, o sustento, o papel de provedor. À mãe — mesmo quando equilibrava uma jornada tripla — restava o cuidar: dos filhos, da casa, da mesa, da cama. Se trabalhava fora, o salário, quase sempre menor, era visto como “ajuda” à renda familiar.
Naquele tempo, o sonho de um pai para o filho era simples e grandioso: que estudasse num colégio melhor, que tivesse uma profissão mais segura, que conquistasse aquilo que ele próprio não teve. Era a lógica dos seriados de TV que mostravam a família perfeita — “Papai Sabe Tudo” era exportado como modelo de harmonia. Até as músicas reforçavam a figura do pai herói, exemplo e guia.
Mas a história não ficou parada. A juventude de Woodstock questionou o modelo. A Guerra do Vietnã arrancou filhos de pais dos dois lados. Antes, a Segunda Guerra havia deixado uma herança de orgulho: os pais que vestiram farda acreditavam na missão de defender a pátria. Nos anos seguintes, muitos ainda desejavam que seus filhos servissem às Forças Armadas — como se essa fosse a prova definitiva de coragem e cidadania.
Hoje, o mundo é outro. Pela primeira vez, há mais mulheres chefiando lares no Brasil do que vivendo como esposas do “chefe da casa”. O IBGE mostra que 1 em cada 3 mulheres é a principal responsável pelo lar. No Nordeste, em mais de dez estados, essa presença feminina ultrapassa a marca de 50%. É a fotografia de uma transformação social profunda, moldada por políticas públicas, lutas e mudanças culturais.
Enquanto isso, uma nova guerra se desenha. Não são batalhas entre países, mas entre grupos que disputam territórios nas cidades. O narcotráfico — com sua rede global de cultivo, fabricação e venda de drogas proibidas — tornou-se, para muitos pais, o inimigo invisível que rouba filhos. Nas favelas e nas ruas asfaltadas, as facções e as milícias travam conflitos diários. Sem políticas eficazes, a violência urbana se tornou a trincheira onde tantas histórias se interrompem cedo demais.
Ser pai, hoje, já não cabe num molde. Não é mais o provedor solene da foto em preto e branco, nem apenas o herói das músicas antigas. É, muitas vezes, ser presença na vida dos filhos mesmo à distância, dividir tarefas, aprender e reaprender com eles. É proteger, não com a espada da guerra, mas com as armas da escuta, do cuidado e do exemplo.
E talvez, no fundo, ser pai continue sendo isso: desejar que o filho vá mais longe — e estar disposto a caminhar junto, mesmo que o mundo insista em mudar o caminho.
Ontem e Hoje
Na foto antiga, o tempo se veste em tons sépia. Um jipe militar, quatro soldados e um horizonte de montanhas ao fundo. Ali está ele, jovem, firme, com o olhar de quem carrega no peito a coragem e no coração os sonhos de voltar para casa. Talvez não soubesse, mas naquele instante estava construindo as histórias que um dia seriam contadas à mesa do almoço, entre risos e silêncios.
Na foto recente, a cena é outra. A guerra, agora, é de beijos, caretas e risadas. O soldado se fez avô, e nos braços carrega uma nova missão: ensinar a uma pequena menina que o mundo pode ser mais leve. Os dois imitam o mesmo bico, como se dissessem, sem palavras, que o amor também é herança — e que afeto é uma forma de vitória.
Entre o ontem e o hoje há décadas de estrada. Houve batalhas travadas longe de casa e outras vencidas no quintal, na cozinha, no trabalho, no cuidado com a família. Houve perdas, ganhos, mudanças de rumo. Mas em tudo, permaneceu o mesmo gesto: caminhar junto, mesmo quando o caminho mudava.
Ser pai é isso. É atravessar o tempo, trocar a farda por um abraço, o volante do jipe pelo colo de um neto. É lutar quando é preciso, proteger quando é necessário, e, acima de tudo, amar — sempre.
E, assim, no silêncio que une duas fotos, cabem uma vida inteira e a certeza de que ser pai é eternizar no olhar do filho — e no sorriso do neto — a história de quem caminhou antes.




