No último sábado, 22 de novembro, vivi uma daquelas viagens que a gente não encontra em guia turístico nenhum. Eu, Vagner e um batalhão de saudades fomos reencontrar nossas colegas do velho Pandía Calógeras. Cinquenta e três anos depois, desembarcamos todos na casa da Conceição, em Maria Paula, com aquele frio na barriga que só quem já esperou o sinal do recreio nos anos de 1970 conhece.

E lá estavam elas: Ângela, Beth, Jô, Marali, Lucinha, Mara, Célia, Conceição. Parecia que alguém tinha rebobinado a fita e apertado o play bem no ponto em que a vida ainda era dividida entre cadernos, paqueras, trabalhos em grupo e provas de matemática do professor Joaci. Ou Juaci. Ou algo assim. Só lembro que as provas eram o Vietnã da turma e que Vagner e Daniel promoviam um campeonato particular para ver quem tirava 10. Eu? Bem, matemática nunca foi minha praia. Em Geografia, sim, eu era campeão.
As meninas… ah, as meninas. As paqueras que quase sempre ficavam só na vontade. Menos para o Vagner, que com aquela cara de malandro de revista em quadrinhos, vivia zombando, rindo e conquistando meio mundo. E ainda teve um amor que, dizem por aí, dura até hoje, mesmo sem estar junto. Coisas do destino que nem o professor de Ciências explicava.
A Jô, então, era um capítulo à parte. Desfilava no recreio como se estivesse na capa da revista Manchete. As roupas eram obras-primas da mãe, e os biquínis, fabricação caprichada de Nélia, a cunhada. Um arraso. Já a Marali não desfilava: lançava. Lançava bola. Bola de queimado. E queimava geral, sem dó nem piedade.
As outras meninas não eram tão comportadas quanto tentavam parecer. Tinha Célia, tinha Conceição, e tinha o famoso episódio da menina que botou a bunda na janela do ônibus. Não vi, não confirmo, mas a lenda corre até hoje nos corredores invisíveis da memória. A Mara era espevitada e doce com todo mundo. Já a Lucinha, mineirinha silenciosa, passava a perna em todo mundo e ainda pegava o pão da sala, com aquela maior cara de santinha. Naquele tempo chamávamos de garotão o pão redondo que o pessoal do Méier adorava e não bobeia como dizia Ângela.
E eu ia aos shows no Teatro Ipanema, acompanhado desse mesmo pessoal, e cheguei a assistir ao último dia da peça Hoje é Dia de Rock. Era uma época em que música era bússola e não trilha de shopping. Falávamos de Janis Joplin, Hendrix, Santana, Joe Cocker. Pós-Woodstock, pré-qualquer-coisa. E o mundo parecia caber entre Alcântara, o colégio, o ABC para Niterói e os sonhos de pegar a estrada para Ouro Preto, Salvador, Itapuã, Lagoa de Abaeté, Arembepe e sua aldeia hippie cheia de histórias que cruzavam mares: Janis, Mick Jagger, Novos Baianos. Tudo parecia possível, passaram por lá nesta época.
E tinha a Ângela. Ou Anjo. Alta, diferente, simpática, sempre ligada em tudo. Conversávamos sobre o mundo, música, revista Realidade, Rolling Stone. Tinha uns papos cabeça que faziam a gente se sentir jovem e inteligente, mesmo usando calça e saia de Nycron azul marinho, camisa branca com escudo no bolso do Colegio Pandia Calógeras e tênis Ki-Chute. Já as meninas enrolavam a saia prensada até virar uma mini da moda, causando desespero em professores e sonhos nos garotos. E tinha os menos ousados… aqueles que botavam espelho no tênis para ver a calcinha das meninas. 1970 sendo 1970.
E Helinha… tímida, elétrica, usando uma calça Lee que fazia qualquer marmanjo achar que estava diante de uma aparição de outro mundo. Calça Lee naquela época era quase passaporte internacional.
Essa era a nossa turma. O tal “High School Diploma”, forma chique que ninguém usava, mas que hoje combina com o espírito do tempo. Estudamos juntos de 1970 a 1972, antes de cada um seguir seu rumo: clássico, científico, contabilidade ou normal, espalhando-se por outras escolas e pela vida.
Sábado, ali na casa da Conceição, a gente percebeu uma coisa simples, mas gigante: o tempo passa, mas certas lembranças não envelhecem. Continuam com cheiro de merenda, barulho de recreio e trilha sonora de Janis Joplin.
Reflections of My Life” é o principal sucesso da banda escocesa The Marmalade. Lançada no final de 1969, a canção se tornou um hit mundial, alcançando o Top 10 nos Estados Unidos e o primeiro lugar em muitos países.
E que bom que ainda podemos voltar, nem que seja por um dia, ao tempo do ki-suco gelado no copo plástico e das conversas que nunca deveriam ter acabado.





