A ideia de que Nicolás Maduro possa “mexer” com a estrutura da América Latina reacende um debate maior, que vai além da Venezuela. Estamos diante de um tabuleiro que lembra uma nova Guerra Fria, agora no século XXI, com Estados Unidos, Rússia, China e a OTAN reposicionando forças, discursos e interesses.
Historicamente, a demonstração de poder militar sempre foi o instrumento preferencial para afirmar hegemonia, seja por razões econômicas, ideológicas ou territoriais. Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo passou a ser organizado sob princípios ditos civilizatórios, mas, na prática, regidos por disputas de poder. As potências vencedoras consolidaram influência global, enquanto outras regiões, como a América do Sul, permaneceram à margem do protagonismo militar, mesmo quando alinhadas politicamente.
A América do Norte construiu sua hegemonia não apenas com armas, mas com narrativa. O poder midiático, amplificado pela indústria cultural e cinematográfica, moldou gerações e legitimou a imagem do “xerife do mundo”. Jovens passaram a enxergar o alistamento militar como defesa irrestrita da pátria, enquanto intervenções externas eram naturalizadas no imaginário coletivo.
No pós-guerra, a divisão do mundo em blocos foi oficializada com a derrota de Alemanha, Itália e Japão. O espólio político, econômico e simbólico desse conflito colocou os Estados Unidos em posição central. A partir daí, consolidou-se a ideia de tutela global, muitas vezes invocada para justificar pressões, sanções e intervenções indiretas em países considerados estratégicos.
É nesse contexto que surgem análises sobre ações de força contra lideranças latino-americanas. Para o especialista em Geopolítica, Segurança e Conflitos Rodolfo Laterza, a exposição ou prisão de um chefe de Estado como troféu criaria um precedente grave: desestabiliza relações internacionais e rompe o princípio de respeito à soberania nacional, podendo gerar ondas de instabilidade na América Latina e no mundo.
Quando se especula sobre operações “cirúrgicas” e ações extraterritoriais, a mensagem que ecoa é clara: a soberania passa a ser relativizada conforme o interesse estratégico. Na avaliação de analistas, posturas desse tipo ignoram a condição soberana de países como a Venezuela e aprofundam a tensão regional, sobretudo quando associadas a discursos de força e advertências a nações vizinhas.
O pano de fundo é econômico. A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo. Governar esse ativo sob um modelo autoritário cobra um preço alto, não apenas internamente, mas no sistema internacional. A conta, como tantas vezes na história, tende a recair sobre a população e sobre a própria riqueza nacional.
O paralelo com outros conflitos é inevitável. A Rússia buscou conter o avanço da OTAN em áreas historicamente ligadas à sua geografia política. Os Estados Unidos, por sua vez, defendem interesses estratégicos sob doutrinas do século XX que associam recursos explorados por empresas norte-americanas a interesses nacionais. A China observa esse cenário e projeta seus movimentos sobre Taiwan, ampliando o espectro da disputa global.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Igor Fuser, aponta a contradição central do momento: ações que violam soberanias são condenadas quando partem de adversários e relativizadas quando partem de aliados. Esse duplo padrão reforça a percepção de que a Guerra Fria do século XXI não é ideológica apenas, mas profundamente econômica e geopolítica.
Para a América Latina, o desafio é antigo e renovado: como preservar autonomia em um mundo que volta a ser regido pela lógica da força. A resposta ainda está em aberto. O risco é repetir a história e, mais uma vez, pagar a conta das disputas entre gigantes.





