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“ENTRE NÓS” coluna de Luís da Saúde

ENTRE NÓS Javier Milei e as trincas no espelho do trabalhador Por Luis da Saúde Em 2025 escrevi Trincas no Espelho, um livro que nasceu do olhar sobre o cotidiano, sobre as pessoas e sobre as contradições que muitas vezes passam despercebidas. Hoje, inicio este espaço chamado Entre Nós com esse mesmo olhar: o de quem acredita que, por trás das grandes decisões políticas e econômicas, existe sempre uma pessoa. E, quando falamos de trabalho, essa pessoa tem nome, tem família, tem sonhos, tem contas para pagar e tem direitos que foram conquistados ao longo de muitas décadas. É por isso que o que acontece na Argentina, sob o governo de Javier Milei, merece nossa atenção. Milei chegou à Presidência em dezembro de 2023 apresentando uma proposta de transformação profunda da economia argentina, baseada em redução do tamanho do Estado, austeridade fiscal, desregulamentação e maior liberdade para o mercado. Seu governo defende que essas mudanças são necessárias para recuperar a economia, estimular investimentos e ampliar a geração de empregos. Mas existe uma pergunta que precisa estar presente em qualquer discussão econômica: onde fica o trabalhador nessa equação? Desde o início de seu governo, Milei promoveu mudanças nas relações de trabalho. Em 2023, seu governo editou um decreto que alterou diversas normas trabalhistas e atingiu temas como proteção contra demissão, negociação coletiva, liberdade sindical e direito de greve. Em 2026, uma nova reforma trabalhista avançou no Congresso argentino. Entre as mudanças discutidas e aprovadas estão alterações na jornada, nas regras de indenização e na negociação coletiva, além de novas regras relacionadas ao direito de greve. Para o governo, trata-se de modernizar o mercado de trabalho, reduzir a informalidade e facilitar a contratação. Para as organizações sindicais e setores da oposição, entretanto, as mudanças representam redução de proteções historicamente conquistadas pelos trabalhadores. É justamente nesse ponto que o Entre Nós precisa parar para conversar. Não se trata de defender que as relações de trabalho permaneçam congeladas no tempo. O mundo mudou. A tecnologia mudou. As profissões mudaram. As empresas mudaram. O trabalhador também mudou. Mas modernizar as relações de trabalho não deveria significar simplesmente transferir para quem trabalha o peso dos ajustes econômicos. Porque existe uma diferença enorme entre flexibilizar uma relação de trabalho e fragilizar quem está dentro dela. Quando uma jornada pode ser ampliada, precisamos pensar no tempo que deixa de ser dedicado à família. Quando uma indenização é modificada, precisamos lembrar que estamos falando da renda de alguém que pode perder o emprego. Quando a negociação coletiva é enfraquecida, precisamos lembrar que, individualmente, trabalhador e empregador não ocupam necessariamente a mesma posição de força. E quando o direito de greve é limitado, não estamos discutindo apenas uma paralisação. Estamos discutindo uma das ferramentas históricas utilizadas pelos trabalhadores para reivindicar direitos. É aqui que volto ao título do meu livro. Trincas no Espelho. Uma trinca não significa que o espelho deixou de refletir. Pelo contrário. Ela nos obriga a olhar com mais atenção. A Argentina pode estar mostrando justamente uma dessas trincas. De um lado, o discurso da liberdade econômica, da eficiência e do crescimento. Do outro, o trabalhador tentando descobrir qual será o preço dessas mudanças na sua própria vida. É preciso reconhecer que existem resultados econômicos positivos apontados pelo governo e por organismos internacionais, inclusive avanços na estabilização macroeconômica e no equilíbrio fiscal. O Fundo Monetário Internacional, por exemplo, registrou em 2026 avanços nas reformas econômicas argentinas e na recuperação das reservas internacionais. Mas uma economia não pode ser medida apenas pelo resultado das contas públicas. Precisamos olhar também para o salário. Para o emprego. Para a jornada. Para a segurança no trabalho. Para o poder de negociação. Para a qualidade de vida. E, principalmente, para a dignidade de quem trabalha. Essa discussão não pertence apenas aos argentinos. Ela também diz respeito ao Brasil. Em um mundo em transformação, muitos países discutem como tornar suas economias mais competitivas. A pergunta que devemos fazer é: competitivas para quem e sob quais condições? Precisamos de empresas fortes. Precisamos de investimentos. Precisamos de crescimento econômico e de geração de empregos. Mas também precisamos de trabalhadores valorizados. Não acredito que desenvolvimento e direitos trabalhistas sejam necessariamente adversários. O desafio de uma sociedade moderna deveria ser encontrar um equilíbrio entre produção, investimento, crescimento e proteção social. Porque, no final das contas, nenhum indicador econômico abraça um filho. Nenhum gráfico paga uma conta de supermercado. Nenhum superávit substitui a tranquilidade de uma família. Os números são importantes. Mas as pessoas também são. E talvez seja exatamente essa a grande questão que Javier Milei e as transformações na Argentina colocam diante de nós: até onde pode ir a liberdade do mercado sem diminuir a liberdade de quem trabalha? Essa é uma conversa que precisamos ter. Sem paixão cega. Sem preconceito. Sem transformar política em torcida. Porque o espelho da sociedade não mostra apenas quem está no poder. Mostra também o rosto de quem trabalha. E é sobre esse rosto que quero conversar com vocês, aqui, no Entre Nós.

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