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QUANDO A ÁGUA CHEGAVA DE TREM A IGUABA GRANDE

Memórias de Célio Pimentel sobre a infância na estação ferroviária mostram como moradores dependiam de poços, cisternas e do vagão-pipa antes da expansão do abastecimento de água tratada

Por Célio Reginaldo Moreira Pimentel

Eu nasci na estação de trem de Iguaba Grande, quando a localidade ainda pertencia a São Pedro da Aldeia. Meus pais moravam na casa conjugada à estação, onde meu pai, Sotero, trabalhava como agente da Estrada de Ferro Maricá.

No pequeno quintal havia um poço. Minha mãe dizia que sua água era salobra: servia para lavar roupas, limpar a casa e abastecer o banheiro, mas não para beber ou cozinhar. A água própria para essas tarefas precisava vir de outro lugar. Essa distinção, que hoje pode parecer simples, organizava a rotina da nossa família e de muitos moradores.

Meu pai cuidava da comunicação com outras estações por telégrafo ou telefone de manivela, preparava a chegada e a partida dos trens, vendia passagens e despachava mercadorias. Pelos trilhos circulavam passageiros e produtos da região, como sal, cal, pescado e itens das lavouras. Para mim, porém, uma das chegadas mais marcantes era a do vagão-pipa.

A água trazida pelo trem abastecia primeiro a cisterna da estação e a caixa d’água usada pelas locomotivas. Segundo minha lembrança, o volume que sobrava era distribuído aos moradores. Eles aguardavam com baldes, latas e barris, atentos para conseguir sua parte antes que a água acabasse.

Meu pai dizia que aquela água vinha da região da serra de Sampaio Corrêa, em Saquarema, e era boa para beber e cozinhar. Não disponho de registros da época que confirmem sua origem ou qualidade; é assim que a informação permaneceu na memória da família. Nos períodos de seca, a chegada do vagão era especialmente esperada.

Outras famílias recorriam a poços compartilhados ou guardavam a chuva em cisternas. Na zona rural, os poços também faziam parte da vida cotidiana. Buscar, transportar e armazenar água exigia tempo e trabalho. Cada recipiente cheio tinha valor.

Com o fim do serviço ferroviário até Iguaba Grande e o crescimento da localidade, essa necessidade não desapareceu. A expansão imobiliária e o movimento das temporadas aumentaram a demanda. Vieram os caminhões-pipa, mas comprar água representava um custo para as famílias e, conforme recordo, nem sempre havia informações claras sobre sua procedência e qualidade.

A concessão dos serviços de saneamento à Prolagos foi assinada em 1998. prolagos.com.br Desde então, a implantação e a expansão do sistema de abastecimento mudaram a forma como a água chega às casas. Hoje, a concessionária capta água na Lagoa de Juturnaíba, trata o recurso em sua estação em São Vicente de Paulo, Araruama, e o distribui também para Iguaba Grande. prolagos.com.br

Para quem cresceu esperando o trem, a mudança tem um significado concreto. Abrir a torneira em casa deixou de depender da chegada de um vagão, de um poço ou da compra de água transportada em barris e caminhões. A lembrança daquela fila na estação também mostra por que é preciso cuidar do manancial, acompanhar a qualidade da água e ampliar o acesso ao saneamento.

Em uma reunião sobre o abastecimento, ouvi de um técnico que a chegada da água encanada traria outra questão para o centro do debate: o esgoto. É uma história que também precisa ser contada. Esta começa com a memória de moradores reunidos na estação de Iguaba Grande, à espera da água que vinha pelos trilhos.

Legendas das imagens

3Célio e seus pais junto ao poço da estação ferroviária de Iguaba Grande. Segundo a memória familiar, a água salobra era usada em tarefas domésticas. Acervo de Célio Pimentel.
4Célio no quintal da estação de Iguaba Grande, na década de 1950. Ao fundo, uma bomba manual de água. Acervo de Célio Pimentel.
1Moradores aguardam com recipientes para recolher a água trazida pelo vagão-pipa da Estrada de Ferro Maricá, em Iguaba Grande, na década de 1950. Acervo de Célio Pimentel.
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