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Quando a água chegava de trem a Iguaba Grande

Quando a água chegava de trem a Iguaba Grande

Fotografias, documentos e relatos de quem viveu as transformações da Região dos Lagos. Um espaço para preservar histórias locais e compreender o presente.

Memória · Iguaba Grande

Em relato pessoal, Célio Pimentel recorda o vagão-pipa, o poço da estação e a espera dos moradores pela água.

Por Célio Reginaldo Moreira Pimentel

 

Memórias de Célio Pimentel sobre a infância na estação ferroviária mostram como moradores dependiam de poços, cisternas e do vagão-pipa antes da expansão do abastecimento de água tratada

Moradores de Iguaba Grande aguardam com recipientes a água trazida pelo vagão-pipa da Estrada de Ferro Maricá, na década de 1950. Acervo de Célio Pimentel.

 

Eu nasci na estação de trem de Iguaba Grande, quando a localidade ainda pertencia a São Pedro da Aldeia. Meus pais moravam na casa conjugada à estação, onde meu pai, Sotero, trabalhava como agente da Estrada de Ferro Maricá.

No pequeno quintal havia um poço. Minha mãe dizia que sua água era salobra: servia para lavar roupas, limpar a casa e abastecer o banheiro, mas não para beber ou cozinhar. A água própria para essas tarefas precisava vir de outro lugar. Essa distinção organizava a rotina da nossa família e de muitos moradores

Célio com a mãe e o pai junto ao poço da estação de Iguaba Grande. Acervo de Célio Pimentel.
Célio no quintal da estação de trem de Iguaba Grande, na década de 1950; ao fundo, uma bomba manual de água. Acervo de Célio Pimentel.

Meu pai cuidava da comunicação com outras estações por telégrafo ou telefone de manivela, preparava a chegada e a partida dos trens, vendia passagens e despachava mercadorias. Pelos trilhos circulavam passageiros e produtos da região, como sal, cal, pescado e itens das lavouras. Para mim, porém, uma das chegadas mais marcantes era a do vagão-pipa.

A água trazida pelo trem abastecia primeiro a cisterna da estação e a caixa d’água usada pelas locomotivas. Segundo minha lembrança, o volume que sobrava era distribuído aos moradores. Eles aguardavam com baldes, latas e barris, atentos para conseguir sua parte antes que a água acabasse.

Meu pai dizia que aquela água vinha da região da serra de Sampaio Corrêa, em Saquarema, e era boa para beber e cozinhar. Não disponho de registros da época que confirmem sua origem ou qualidade; é assim que a informação permaneceu na memória da família. Nos períodos de seca, a chegada do vagão era especialmente esperada.

Um rolão, recipiente utilizado para transportar água. Local, data e autoria da fotografia não identificados.
Bica de uso coletivo em Cabo Frio. Data e autoria da fotografia fotógrafo Wolney Teixeira.

Outras famílias recorriam a poços compartilhados ou guardavam a chuva em cisternas. Na zona rural, os poços também faziam parte da vida cotidiana. Buscar, transportar e armazenar água exigia tempo e trabalho. Cada recipiente cheio tinha valor.

Com o fim do serviço ferroviário até Iguaba Grande e o crescimento da localidade, essa necessidade não desapareceu. A expansão imobiliária e o movimento das temporadas aumentaram a demanda. Vieram os caminhões-pipa, mas comprar água representava um custo para as famílias e, conforme recordo, nem sempre havia informações claras sobre sua procedência e qualidade.


Seu Moço e Dona Menina, em Bananeiras, Araruama. Segundo a identificação fornecida pelo autor, há ao fundo uma cisterna para armazenar água da chuva. Acervo de Célio Pimentel.

 

A concessão dos serviços de saneamento à Prolagos foi assinada em 1998. Desde então, a implantação e a expansão do sistema de abastecimento mudaram a forma como a água chega às casas. Hoje, a concessionária capta água na Lagoa de Juturnaíba, trata o recurso em sua estação em São Vicente de Paulo, Araruama, e o distribui também para Iguaba Grande.

Para quem cresceu esperando o trem, a mudança tem um significado concreto. Abrir a torneira em casa deixou de depender da chegada de um vagão, de um poço ou da compra de água transportada em barris e caminhões. A lembrança daquela fila na estação também mostra por que é preciso cuidar do manancial, acompanhar a qualidade da água e ampliar o acesso ao saneamento.

Em uma reunião comunitária sobre o abastecimento, ouvi de um técnico que a chegada da água encanada traria outra questão para o centro do debate: o esgoto. É uma história que também precisa ser contada. Esta começa com a memória de moradores reunidos na estação de Iguaba Grande, à espera da água que vinha pelos trilhos.

 

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